segunda-feira, 12 de outubro de 2020

GONZAGÃO E O 12 OUTUBRO

 

Foto: Reprodução/Facebook


Hoje é 12 de outubro, dia da padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, e data também comemorativa das crianças. E Luiz Gonzaga fez sua homenagem à essa turminha especial, fora o grande carinho que o Rei do Baião tinha pela criançada, como se pode ver na foto acima no saguão do aeroporto do Rio de Janeiro nos anos 80 antes de embarcar em mais uma de suas turnês.

Em 1984 Gonzagão emprestou sua voz numa faixa do disco "Clube do Bozo", renomado palhaço que alegrava manhãs da criançada nos anos 80 em seu programa infantil. A música era "Forró das crianças", de autoria do sanfoneiro e de João Silva.


Foto: Diário de Cuiabá


Já em homenagem à santa padroeira do país, Gonzagão também não poderia deixar de reverenciar e louvar, como artista bastante apegado à religiosidade católica, Nossa Senhora Aparecida. Até porque, segundo o próprio sanfoneiro, a mãe de Cristo já havia intercedido muito por sua vida. Mais ainda depois que sofreu um grave acidente automobilístico em 1961, quando viajava em companhia de seu filho Gonzaguinha e dos músicos Salário Mínimo, Catamilho e Zequinha.

"Neste momento horrível da minha vida, fiz quase em pensamento uma oração. Todos vão dizer que uma prece leva tempo. Conversa. A gente reza muito em frações de segundo. Eu ja havia encerrado a minha oração, e o carro ainda estava balançando, nos dois minutos que lá ficou, cai não cai. Foi quando lembrei e voltei à presença de Nossa Senhora.", revelou em entrevista à extinta revista Cruzeiro naquele mesmo ano. Desta feita pagou promessa à Nossa Senhora da Penha no Rio de Janeiro.

Mas não precisou de graça alcançada para Luiz Gonzaga incluir em sua obra toda sua fé em Maria. Em 1955 compôs com Raimundo Grangeiro "Padroeira do Brasil", saudando a santa que hoje é venerada em todo o país, inclusive lotando a Basílica da cidade de Aparecida anualmente numa peregrinação que reúne milhões de pessoas de todo o Brasil - e até de outros países.

Confira abaixo nossas homenagens às crianças que são o futuro do planeta no seu dia e aos devotos de Nossa Senhora Aparecida.




Forró das crianças - Luiz Gonzaga/João Silva (1984)


"Chega, gente
Dá de garra nessa dança
Que é forró para as crianças
E a alegria vai jorrar!

Vem, neném
Vem ninar incendiando
Vem pegando fogo
Que o xamego desse nego
Faz aqui um jogo
Ajunta côco com xaxado, xote e xêem

Vem, neném
Vem gingando, balançando
Dando requebradinho
Nesse coco miudinho
Bonitinho e bom
Remexendo, respondendo assim nesse tom.

O candieiro clareou
Como clareou
E tem é mais que clarear
Tem que clarear
O sanfoneiro se acordou
Fogo se acordou
Pra botar forró no ar que a gente quer forrofiar!"





Padroeira do Brasil - Luiz Gonzaga/Raimundo Grangeiro (1955)


"Senhora da Aparecida
Senhora da Aparecida
Venho de longe a cantar
Venho de longe a cantar
Para fazer-te um pedido
Para fazer-te um pedido
E minha santa louvar
E minha santa louvar

Ai, ai, ai...
Ôôôô...
E minha santa louvar.

Minha santinha morena
Minha santinha morena
Alegremente te louvo
Alegremente te louvo
Proteja minha Helena
Proteja minha Helena
Padroeira do meu povo
Padroeira do meu povo

Ai, ai, ai...
Ôôôô...
Padroeira do meu povo

Senhora da Aparecida
Senhora da Aparecida
Com o teu manto de anil
Com o teu manto de anil
Cubra de graças meu povo
Cubra de graças meu povo
Padroeira do Brasil
Padroeira do Brasil

Ai, ai, ai...
Ôôôô...
Padroeira do Brasil."

domingo, 2 de agosto de 2020

CARTINHA PARA SEU LUIZ


Ilustração: Arievaldo Viana


Há exatos 31 anos, em 02 de agosto de 1989, o Brasil e o mundo viam se calar uma das grandes vozes da música. Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, entrou para a história da cultura popular brasileira com sua sanfona e sua cantoria que encantou gerações por cinco décadas - e ainda encanta até os dias atuais.

Gonzagão deixou seu legado cultural e influenciou diretamente a música popular brasileira reinventando ritmos, criando outros, dando uma nova cor ao cancioneiro regional. O ritmo envolvente do estilo eternizado pelo sanfoneiro, com a simples formação sanfona, zabumba e triângulo, convida todos a dançar, mesmo fora do período do carnaval. Representante maior da música popular nordestina, o "Velho Lua" interferiu decisivamente na trajetória musical do país ao introduzir no cenário nacional os ritmos do Nordeste – toadas, xotes, chamegos, baiões, xaxados, marchinhas, maracatus, emboladas, etc. 

Com sua musicalidade moldou a identidade nordestina no imaginário do Brasil, imprimindo ao acordeon das valsas e tangos, a partir da década de 1940, um novo estilo sonoro. E esta identidade nordestina acabou por influenciar – e atrair – várias gerações ao longo do tempo.

Inúmeras homenagens desde sua passagem foram feitas ao mestre maior da música nordestina. Seja com composições, documentários, reportagens, filme e até enredo vencedor de escola de samba do Rio de Janeiro. Todas de suma importância para a continuidade do legado do "Velho Lua".

Vários de seus contemporâneos do meio musical tiveram na arte deixada por Luiz Gonzaga um alicerce para suas carreiras, que serviu para continuar o trabalho do sanfoneiro e formar uma nova legião de admiradores e novos músicos que nunca tiveram contato pessoal com o Rei do Baião, mas que passaram a admirar e a pôr em prática sua rica obra. 

E como na letra da música de Flávio José abaixo, que fala da saudade que o Rei do Baião nos deixou, todos os seus fiéis seguidores escreveram e escrevem uma cartinha para Luiz, nem que seja em pensamento, expressando o dever de seguirem em frente com sua obra de valor incalculável.




Cartinha pra seu Luiz - Flávio José (1997) - part. Fagner


"Velho, que saudade de você
Seu pé de serra está tão triste
Pois você não voltou mais
Chora a asa branca
Choram as juritis
Ai, quanta saudade, seu Luiz

Chora a asa branca
Choram as juritis
Ai, quanta saudade, seu Luiz

Velho, se eu tivesse um mensageiro
Eu escrevia uma cartinha 
Pra você dizendo assim
Como forrozeiro
Ainda canto o seu baião
Alegrando a nossa noite de São João

Bravo Luiz
Deus que te guarde feliz
Todo nordestino canta e diz..."

quinta-feira, 30 de julho de 2020

PROGRAMA VIVA O REI ESTÁ DE VOLTA





Estava sentindo falta da viagem na vida e obra de Luiz Gonzaga? Pois no próximo sábado, 1º de agosto, o Programa Viva o Rei estará de volta nas ondas da Liberdade FM, a partir das 9h da manhã!

Vamos embarcar juntos com muita música, informação e cultura! Esperamos vocês nos caminhos abaixo:

- Liberdade FM 87,7 Parnamirim/RN;
- App da Liberdade FM;
- RadiosNET;
- YouTube ao vivo: Liberdade FM 87,7.

#FiqueEmCasa

terça-feira, 28 de julho de 2020

LUIZ GONZAGA, O CANGACEIRO MUSICAL

Foto: Autor desconhecido


Foto: Benjamim Abrahão/IMS


Hoje, dia 28 de julho, completam-se 82 anos do início da derrocada do cangaço no Nordeste brasileiro. Foi exatamente naquela quinta-feira nublada, com o raiar da manhã, que deu-se o fim da linha para Virgulino Ferreira, mundialmente conhecido como o cangaceiro Lampião.

Junto do Rei do Cangaço sucumbiram à volante do tenente das forças alagoanas João Bezerra mais 10 cangaceiros - e um soldado da polícia foi morto no combate, chamado Adrião. A luta deu-se na Grota do Angico, no município sergipano de Poço Redondo. E a partir de então o fenômeno social Cangaço começou a declinar até ser considerado acabado em 1940, quando da morte de outro cangaceiro renomado, Corisco.

A história bem detalhada dos acontecimentos na véspera, durante e no pós-combate de Angico está muito bem documentada no vídeo abaixo do canal do pesquisador cearense Aderbal Nogueira: "Angico - 80 anos depois". Nele, os sobreviventes e as testemunhas oculares contam com riqueza de detalhes todos os acontecimentos que culminaram no tombamento do Rei do Cangaço e de sua esposa Maria Bonita.



Virgulino Ferreira da Silva nasceu em 04 de junho de 1898 (data que mais se acredita ser a correta segundo os pesquisadores) em Vila Bela, hoje Serra Talhada, no sertão de Pernambuco. Filho de José Ferreira e Maria da Purificação, Virgulino cresceu como a maioria dos jovens do semiárido nordestino: ajudando os pais desde cedo na labuta diária e estudando quando podia.

Sua entrada para o cangaço aconteceu quando ele nem contava ainda com 20 anos de idade, muito em virtude de atritos entre sua família e a da vizinha de terras, Saturnino. Passou então a ser cabra de Sinhô Pereira, o primeiro chefe que o futuro Rei do Cangaço teve nas veredas da caatinga. 

Há relatos de historiadores em relação à origem da alcunha de "Lampião". Segundo se atesta o nome lhe foi dado por sua capacidade de atirar seguidamente e com precisão, chegando a iluminar as noites com os disparos de seus rifles.

O cangaço foi um fenômeno social que ficou marcado pelos crimes e pela violência usada pelos bandos de cangaceiros, que percorriam o sertão nordestino assaltando, pilhando e saqueando as cidades, além de cometerem assassinatos. Ocorreu do Ceará à Bahia e teve início incerto, mas constam nos registros históricos que as primeiras ações desse fenômeno se deu pelas mãos do pernambucano Cabeleira ainda no século 18.

Ainda houve outros notórios cangaceiros antes do período triunfal de Lampião: o baiano Lucas da Feira, o potiguar Jesuíno Brilhante, os pernambucanos Antônio Silvino (vulgo Rifle de ouro) e Sinhô Pereira (como já citado o primeiro líder de Virgulino), dentre outros.

Em 1922, com a "aposentadoria" de Sinhô Pereira do cangaço, o então regente do bando cangaceiro passa a coroa para o jovem Virgulino, então com 24 anos, que, a partir daí, promove uma verdadeira revolução no cangaceirismo e reina absoluto pelo próximos 16 anos.


Foto: Benjamim Abrahão/IMS


A indumentária cangaceira é bem característica, como se pode visualizar nas imagens. As roupas eram, na maioria das vezes, costuradas pelos próprios cangaceiros - homens e mulheres. Todos deveriam ter noções de costura, pois naquela vida de andarilhos e fugitivos da lei não era tarefa fácil solicitar os serviços de um alfaiate nas cidades. 

As roupas dos cangaceiros eram basicamente de couro por conta da vegetação ressequida, espinhosa e pontiaguda da caatinga do Nordeste, a fim de que não se machucassem em suas andanças - principalmente durante as fugas. Estas vestimentas eram adornadas com moedas, fitas coloridas e outras peças de metal.

O "fardamento" cangaceiro era composto por: chapéu de couro com abas dobradas e enfeitadas com pinturas, bordados ou moedas; bornais para carregar mantimentos e demais utensílios para uso durante a rotina; roupa de couro para proteção contra a vegetação e o sol escaldante; perneira para proteção contra plantas espinhosas pequenas ou animais peçonhentos, alpercatas de couro; lenço ao redor do pescoço e cantis contendo água ou cachaça.

Esta vestimenta dos cangaceiros acabou por virar um símbolo do Nordeste e que até hoje é representada em várias situações que remetem à esta região brasileira. Outro importante legado cultural deixando pelo cangaço foi o xaxado, dança idealizada pelos bandos feita sem auxílio de instrumentos musicais e marcada apenas pelo arrastado dos pés no chão ao som de batidas de palmas ou dos mosquetões contra o solo.


Foto: Autor desconhecido


Lampião era conhecido por todo o Brasil, principalmente no Nordeste, já desde os anos 20. E toda família sertaneja convivia com as incerteza e o medo de quando o bando do Rei do Cangaço poderia estar nas redondezas. E neste contexto estava inserida a família de Luiz Gonzaga, que vivia no sopé da Serra do Araripe em Exu/PE. Porém, o então jovem Luiz era fascinado pelas histórias que ouvia daquele homem e que havia visto numa foto em um jornal.

Certa vez Lampião foi motivo até para uma surra levada pelo menino Gonzaga. Conforme o sanfoneiro contou em uma entrevista à TV Educativa nos anos 80, soube-se que o cangaceiro e seu bando estavam rumando para Juazeiro do Norte/CE (tal fato ocorreu em 1926) e que havia um boato de que eles passariam por aquelas proximidades de Exu. Foi o suficiente para que várias famílias fugissem em direção à caatinga para não encontrar com a cabroeira de Lampião pelo caminho. Veja e ouça no vídeo abaixo o próprio Gonzagão contando esse causo ao entrevistador.




Gonzaga sempre teve o desejo de mostrar ao mundo toda a cultura nordestina em sua essência, seja através da música, do folclore, da natureza, dos costumes, da culinária e da indumentária. Indumentária esta que ele fez questão de incorporar às suas apresentações. No início de sua carreira como músico no começo dos anos 40, inspirado pelo sanfoneiro catarinense Pedro Raimundo, que se vestia com roupas típicas de gaúcho em suas apresentações, o Rei do Baião passou a se apresentar a partir de então com trajes típicos de nordestino – especificamente a roupa de cangaceiro.

Através de seus trajes, Gonzagão levou ao Brasil praticamente todas as representações culturais do Nordeste. O sanfoneiro sabia que por trás daquelas roupas havia todo um histórico da região, seja pela roupa do vaqueiro (o gibão também seria usado pelo Velho Lua) ou na estética do cangaço com seu colorido intenso e seus arranjos em grande quantidade. Assim, o sanfoneiro bebeu da fonte de Lampião e seus cabras para mostrar para todo o país os elementos culturais e históricos do território nordestino. 

No seu repertório também não poderia faltar menções ao Cangaço, à Lampião e seus cabras. Não demorou para incorporar em sua obra o ritmo deixado como legado pelos cangaceiros. O primeiro registro do xaxado e de menções ao cangaço foi em 1952, quando compôs com Hervê Cordovil "Xaxado". Porém, a música mais conhecida com estes motes é, sem dúvida, "Olha a pisada", em parceria com Zé Dantas no ano de 1954.

Então, nesta data tão importante e histórica para a história do Brasil, e sobretudo do Nordeste, nada mais justo que lembrar dela ao som do "cangaceiro musical", como também ficou conhecido o Rei do Baião.




Xaxado - Luiz Gonzaga/Hervê Cordovil (1952)


"Xaxado é dança macho
Dos cabra de Lampião
Xaxado, xaxado, xaxado
Vem lá do sertão

Xaxado, meu bem, xaxado
Xaxado vem do sertão
É dança dos cangaceiros
Dos cabras de Lampião

Quando eu entro no xaxado
Ai, meu Deus
Eu num paro não
Xaxado é dança macho
Primo do baião."





Lampião falou - Venâncio/Aparício Nascimento (1981)


"Eu não sei porque cheguei
Mas sei tudo o quanto fiz
Maltratei, fui maltratado
Não fui bom, não fui feliz
Não fiz tudo o quanto falam
Não sou o que o povo diz

Qual o bom entre vocês?
De vocês, qual o direito?
Onde esta o homem bom?
Qual o homem de respeito?
De cabo a rabo na vida
Não tem um homem perfeito

Aos 28 de julho
Eu passei pro outro lado
Foi no ano trinta e oito
Dizem que fui baleado
E falam em outra versão
Que eu fui envenenado

Sergipe, Fazenda Angico
Meus crimes se terminaram
O criminoso era eu
E os santinhos me mataram
Um lampião se apagou
Outros lampiões ficaram

O cangaço continua
De gravata e jaquetão
Sem usar chapéu de couro
Sem bacamarte na mão
E matando muito mais
Tá cheio de lampião

E matando muito mais
Tá assim de lampião
E matando muito mais
Na cidade e no sertão
E matando muito mais
Tá sobrando Lampião
E matando muito mais
Tá cheio de Lampião."

terça-feira, 21 de julho de 2020

O MAIS CARO DOS DESCENDENTES DO REI

Foto: Deyse Euzébio/SECOM JP


A cultura brasileira, sobretudo a nordestina, amanheceu de luto nesta terça-feira. Faleceu em São Paulo, na madrugada deste dia 21 de julho aos 72 anos, Pinto do Acordeon, um dos maiores representantes do legado musical deixado por Luiz Gonzaga. O sanfoneiro já enfrentava vários problemas de saúde há alguns anos e não resistiu à luta contra um câncer de bexiga.

Nascido na pequena Conceição/PB em 12 de fevereiro de 1948, Francisco Ferreira de Lima, filho dos artesãos Josefa Ferreira e Francisco Moreno Lima, desde jovem pegou gosto pela música. Um dos 12 filhos do casal Francisco e Josefa, "Nêgo Pinto", como era conhecido, teve uma infância quase rotineira de quem nascia no interior nordestino à época: estudando quando havia condições, nas brincadeiras com os amigos e na labuta desde cedo ajudando no sustento da família.

Por volta de 1964 deixou sua terra natal, encravada no vale do Piancó, junto com sua família em direção a Patos, cidade situada nas proximidades de Conceição e bastante desenvolvida, em busca de uma situação melhor de vida. Como desde jovem já era fascinado por música e tinha o dom de por letras em diversas melodias, não demorou para conseguir adquirir sua primeira sanfona e começar a tocas nos bailes da região. Foi o primeiro passo para o sucesso que lhe esperava.


Foto: Reprodução/LP Me botando pra roer


A ligação de Pinto do Acordeon com Luiz Gonzaga vem de muito jovem, sendo o Rei do Baião, inclusive, o responsável por uma surra tomada de seu pai como contou a Dominguinhos na série "O milagre de Santa Luzia", dirigido por Sérgio Roizenblit, na qual participou de um episódio. Segundo ele, deixou de fazer um trabalho para o patriarca para ir ver um show de Gonzagão numa escola da cidade. E quando voltou pra casa sem o serviço feito, apanhou.

Apesar de extremamente talentoso com a sanfona, exímio improvisador e compositor, ainda faltava uma oportunidade de ouro para Pinto mostrar a todo o país seu grande trabalho. E ela veio no início dos anos 70, quando conheceu o próprio Rei do Baião pessoalmente através de um amigo em comum que era um dos patrocinadores das turnês de Luiz Gonzaga: o Fumo Dubom. Com um faro apurado para talentos no forró, o Velho Lua logo se encantou por aquele "Nêgo" e o convidou para apresentações pelo Brasil. Foi o pontapé inicial para sua brilhante trajetória musical.

A partir de então a carreira de Pinto do Acordeon desabrochou de vez. Ganhou uma sanfona branca de Gonzaga e passou a fazer parte do rol dos artistas nacionalmente conhecidos com todos os méritos.

Em 1976 gravou seu primeiro LP, onde consta seu primeiro grande sucesso com "Arte culinária" em parceria com Lindolfo Barbosa. Depois, foram mais de 400 músicas compostas, gravadas e/ou cedidas a outros artistas em mais de quatro décadas de carreira.


Foto: Divulgação/O milagre de Santa Luzia


Artistas dos quilates de Elba Ramalho (que é sua conterrânea da cidade de Conceicão/PB), Dominguinhos (foto acima), Fagner, Trio Nordestino, Genival Lacerda, Jorge de Altinho, Flávio José e tantos outros gravaram composições de Pinto do Acordeon. Elba, inclusive, gravou o maior sucesso da carreira de seu "vizinho", a clássica "Neném Mulher", que ficou internacionalmente conhecida por fazer parte da trilha sonora da novela Tieta, de 1989, da TV Globo. 

Em 1980 Pinto gravou "Obrigado, Luiz" no disco "As filhas da viúva" em homenagem ao seu grande mestre Luiz Gonzaga. Depois, em 1986, esteve em estúdio com o próprio Rei do Baião para gravar "Missão cumprida", de sua autoria em que homenageia outra vez Gonzaga exaltando sua carreira. Rendendo-lhe, inclusive, por parte do mestre o título desta postagem como o "mais caro dos seus descendentes".

Além da música, Pinto do Acordeon também enveredou na política. Compunha músicas para candidatos de quaisquer partidos e ideologias e tentou um mandato de vereador em Patos no anos de 1989, contudo, ficando na primeira suplência. Mudou-se para a capital João Pessoa e tentou vaga na Câmara Municipal da cidade, aí sim obtendo sucesso em duas eleições: 1993 e 1997. 

Já com a carreira plenamente consolidada, em 2008 viajou para Montreux, na Suíça, a fim de se apresentar no Festival de Jazz que acontece anualmente na cidade europeia. Ao seu lado estavam outros artistas consagrados da música brasileira como Milton Nascimento, Elba Ramalho, Gilberto Gil, Chico César, Flávio José, Aleijadinho de Pombal, dentre outros.

Em 2015 sua trajetória de sucesso virou livro, escrito por Onaldo Queiroga, com o título "Por amor ao forró" pela editora Latus. A obra é um misto de biografia do forrozeiro paraibano que dedicou mais de 40 anos de sua vida a esse ritmo tão nordestino com passagens de seu cotidiano, de sua convivência com o Rei do Baião Luiz Gonzaga e de depoimentos de outros músicos como Dominguinhos, Fagner, Chico César e Valtinho do Acordeon. 


Arte: Reprodução/WSCom


Desde 2015 Pinto do Acordeon apresentava problemas de saúde, começando com diabetes e complicações cardíacas e renais. Segundo o próprio sanfoneiro, fruto de sua vida nada regrada - era boêmio e fumante. E, por fim, um câncer na bexiga que fez com que um dos grandes nomes da cultura musical nordestina nos deixasse.

Francisco Ferreira de Lima, conhecido no mundo inteiro como Pinto do Acordeon, deixa esposa, sete filhos, 19 netos e um legado cultural inestimável para as futuras gerações com 486 músicas em seu repertório e cerca de 20 discos gravados (entre LPs e CDs), sobretudo do forró autêntico. Não à toa, como já dito, foi "o mais caro descendente de Luiz Gonzaga".

Ficam aqui nossos sentimentos à família de Pinto do Acordeon e a todos os admiradores da verdadeira arte nordestina. Agora o céu dos artistas será ainda mais animado com a presença do "Nêgo" pra embalar a festa eterna com Gonzagão, Dominguinhos, Sivuca, Marinês, Arlindo dos 8 baixos, Camarão, Mário Zan e tantas outras estrelas da nossa arte.

"Eu vou estar vivo uma vida inteira porque o artista não morre. O artista não vai morrer nunca. Ele se imortaliza." (Pinto do Acordeon)




Neném mulher - Pinto do Acordeon (1986)


"Neném, neném, neném
O que aconteceu?
Tão todos te querendo
Tu vem fica mais eu.

Neném, neném, mulher
Me dá teu coração
Que eu caso com você
Nesta noite de São João.

Basta ver como estou
Enjeitado sem amor
Vem depressa me abraçar
E por toda vida
Nunca mais nos separar."




Obrigado, Luiz! - Pinto do Acordeon (1980)


"No sertão do Pernambuco
Nasceu um cidadão
Que o mundo inteiro conhece
Como Luiz Rei do Baião

Ele é majestade
Ele é o grande rei
Me deu uma sanfona branca
Que de alegria, chorei

O baixo e a sanfona
Me dá tanta inspiração
Que agora tenho mais jeito
Pra cantar o seu baião

Só meu faltam o chapéu
O gibão e o nome seu
Mas ninguém vai herdar isso
Tudo vai para o museu

Todo sanfoneiro 
Tem que respeitar
A sua estrela de ouro
E seu modo de cantar

Bravo, Luiz!
Deus que te faça feliz
Todo nordestino
Canta e diz..."


domingo, 19 de julho de 2020

O REI E O FUTEBOL

Foto: Autor desconhecido


Ninguém duvida que futebol e música são duas das grandes paixões do povo brasileiro. Uma dupla que joga junta em qualquer situação. Tão grande a afinidade entre ambos que diversas canções ao longo dos anos mundo a fora trataram da bola e há uma definição de que os grandes craques jogam "por música". 

Hoje, 19 de julho, é o Dia Nacional do Futebol. A data foi escolhida em 1976 pela Confederação Brasileira de Desportos, antiga CBD e hoje Confederação Brasileira de Futebol (CBF) em homenagem ao time mais antigo do país ainda em atividade, o Sport Club Rio Grande, do Rio Grande do Sul, fundado no dia 19 de julho de 1900. Ou seja, há 120 anos exatos.

E se alguma coisa desperta paixão no brasileiro e já faz parte da nossa cultura e da nossa história, certamente faz parte da vida e obra do Rei do Baião. Desta feita o futebol teve seu espaço no repertório de Luiz Gonzaga ao longo de suas 5 décadas de carreira.


Foto: Autor desconhecido


Gonzagão, como quase todo brasileiro, era muito ligado ao futebol, apesar de poucos registros de sua vida ligados ao assunto. Mas é certo que era um torcedor apaixonado pelo Santa Cruz de Recife, do seu estado natal Pernambuco, e pelo Botafogo do Rio de Janeiro, que àquela época entre os anos 40 e 60 era a base da seleção e contava com uma legião de craques como Heleno de Freitas, Didi, Garrincha, Vavá, Nilton Santos, entre tantas outras lendas do esporte bretão. Tais paixões futebolísticas de Luiz Gonzaga ficaram conhecidas de vez em uma entrevista ao programa Bate Bola Nacional, da Rádio Nacional, apresentado pelo radialista José Sergival da Silva.

Quando o Velho Lua retornou para viver de vez em sua Exu no começo dos anos 80 chegou a dar nome a um time da cidade, o Gonzagão Futebol Clube - uma homenagem de um sobrinho ao tio famoso. A primeira foto desta postagem, de 1987, foi a estreia do clube num torneio regional contra uma equipe de Araripina, também no estado de Pernambuco.

Em seu repertório, o Rei do Baião incluiu 3 gravações com o tema futebol: "Siri jogando bola", de sua autoria com Zé Dantas (1956); "Hino do Batistão", composta junto com Hugo Costa (1968); e "Lá vai pitomba", criada pelo sanfoneiro em parceria com Onildo Almeida (1980). Também incluiu na letra de "O papa e o jegue", composição sua e de Otacílio Batista de 1983, citações referentes à derrota da seleção brasileira na Copa de 1982, como você pode acompanhar na última postagem.

A música "Hino do Batistão" foi composta para a inauguração do estádio de Aracaju/SE em 1969, cuja festa contou com a participação de Gonzaga, Dominguinhos e Anastácia para um público presente de mais de 45 mil pessoas.

Em homenagem ao dia de uma das grandes paixões brasileiras, segue abaixo um vídeo com "Lá vai pitomba" na voz de quem bateu um bolão na nossa arte.




Lá vai pitomba - Luiz Gonzaga/Onildo Almeida (1980)


"De pé em pé
A bola no gramado
Vai de lado a lado
E lá vai pitomba!

Do meio do campo
Vai para o ataque
Que não é de araque
E lá vai pitomba!

O goleiro sai
Consegue espalmar
Meu time de novo vai lá.

No pé, na cabeça
No corpo, no chão
Meu time jogando um bolão.

E é gooooooool!

Bota a bola lá no meio do campo
Bota a bola lá no meio do campo
Meu time vai fazer mais um gooooool..."

quarta-feira, 8 de julho de 2020

A RELIGIOSIDADE E A NATUREZA

Imagem: Facebook/Portal O Nordeste


Foto: Reprodução/Internet


A religiosidade e a natureza foram dois dos principais motes na obra de Luiz Gonzaga. Ao longo de suas 5 décadas de carreira, o Rei do Baião se inspirou bastante nas crenças, tradições e na paisagem do seu pé de serra, onde veio ao mundo há quase 108 anos.

Seu pai Januário sempre compunha suas toadas no fole de 8 baixos com estas mesmas inspirações para animar os sambas do Araripe no começo do século passado. E tal feito passou para o filho como podemos ouvir e apreciar no repertório de Gonzagão - num total de 78 gravações com esses motes.

Mesmo no tempo em que ainda não era tão famoso e que sequer cantava em suas gravações, Luiz Gonzaga já introduzia em sua música composições relacionadas ao meio ambiente. A primeira delas ainda foi em seu primeiro ano como artista profissional, em 1941, quando gravou a instrumental "Arrancando Caruá" de sua própria autoria. Caroá, como se escreve corretamente, é uma bromélia de pouca folhagem típica da caatinga nordestina e que possui flores avermelhadas. Já colocando letra na música, a pioneira com referência à natureza foi com a hilária marchinha carnavalesca "Ovo Azul", em co-autoria com Miguel Lima no ano de 1945.

Daí por diante foram 52 músicas em sua discografia exclusivamente com inspiração para homenagear, louvar, apreciar, associar ou simplesmente fazer brincadeira com a natureza, seja com animais ou plantas. A mais conhecida de todas, sem dúvidas, é a icônica "Asa Branca", de sua autoria com Humberto Teixeira do ano de 1947. Mas também podemos citar "Assum preto", "Sabiá", "Juazeiro", "Acácia Amarela", "Riacho do Navio", "Siri jogando bola", entre tantas outras.


Foto: Luís Fábio Silveira/ResearchGate


Já em relação à religiosidade, Gonzaga cresceu ouvindo sua mãe Santana puxando e cantando nas novenas à Nossa Senhora na sua infância e certamente isso foi outra grande inspiração para incluir em sua obra este fervor da fé tão presente na vida do sertanejo. Através da religião, o Velho Lua agradeceu por intercessões em sua vida, louvou santos e personalidades religiosas ou simplesmente fez alusões da fé cristã com nosso cotidiano.

A primeira gravação do sanfoneiro com uma amostra de sua fé cristã foi em 1944, ainda na fase apenas instrumental com "Subindo ao céu", de Arestides Borges. Já a primeira gravada com letra foi em 1951 em "Baião da Penha", de Guio de Moraes e Davi Nasser. 

Como curiosidade, esta música foi uma espécie de pagamento de promessa à Nossa Senhora da Penha, que possui uma igreja em sua consagração na Vila da Penha, no Rio de Janeiro, famosa por sua longa escadaria para se chegar até ela. Neste mesmo ano o Rei do Baião sofreu seu primeiro dos dois acidentes automobilísticos que marcaram sua trajetória. Foi na cidade Santos/SP, quando vinha acompanhado de seus músicos Catamilho e Zequinha, quando o automóvel em que estavam despencou em uma ribanceira por vários metros e todos saíram ilesos.

Ou seja, Luiz Gonzaga sempre esteve ligado à fé e fez questão de incorporá-la à sua obra.


Imagem: CRB-SP


Dentre as quase 700 músicas gravadas pelo Rei do Baião, 26 tiveram cunhos ligados à religiosidade. E destas 26, certamente "Súplica cearense", de Gordurinha e Nelinho, e "Ave-Maria sertaneja", de Júlio Ricardo e O. de Oliveira, são as mais tocadas e lembradas. Mas podemos citar vários clássicos nesta vertente como "São João do Carneirinho", "Obrigado, João Paulo", "Beata mocinha", "Lenda de São João", "Frei Damião" e muitas outras.

Abaixo, Gonzaga canta e toca uma música que mistura um pouco dos dois casos - "O papa e o jegue", de sua autoria com Otacílio Batista. Fala do "nosso irmão" jumento, tão versado em sua obra, num imbróglio com uma viagem para o Vaticano, sede da Igreja Católica, numa história bem descontraída. Esta composição, curiosamente, foi inspirada num folclórico paraibano que vivia em Brasília chamado Damião - citado na letra - que tentou presentear o papa João Paulo II com um equino durante sua visita ao Brasil em 1980, obviamente sem sucesso.

Aliás, a referência ao animal ser nosso irmão, não custa lembrar, é do padre Antônio Vieira, outra grande personalidade religiosa da história do nosso Nordeste brasileiro e que foi solenemente citado na clássica "O jumento é nosso irmão", de Gonzagão e José Clementino.




O Papa e o jegue - Luiz Gonzaga/Otacílio Batista (1983)


"O jumento é o símbolo da pobreza
Animal que figura no Evangelho
Comedor de molambo e papel velho
Não tem medo de fome em sua mesa
Ao seu dono ele dá pouca despesa
No verão, no inverno ou no sol quente
Pensador, preguiçoso e paciente
Foi amigo do filho de Jeová
Hoje serve a carne de jabá
Nas cozinhas mais ricas do Oriente

Quer queria, ou quer não
O jumento é nosso irmão.
Quer queria, ou quer não
O jumento é nosso irmão.

Traz o jegue no lombo a cruz da morte
O sinal do menino de Belém
Jesus Cristo quis visitar Jerusalém
O jumento serviu-lhe de transporte
No Brasil o jumento teve a sorte
De ser presente do Papa um santo nome
Vai comer do que pouca gente come
Nos quintais do palácio italiano
Engordar nos jardins do Vaticano
E seus irmãos no Brasil passando fome.

Quer queria, ou quer não
O jumento é nosso irmão.
Quer queria, ou quer não
O jumento é nosso irmão.

César Coelho apitou a decisão
Da Itália jogando com a Alemanha
Havelange lamenta na Espanha
A derrota da nossa seleção
Os romanos levaram o canecão
Paulo Rossi é da copa o artilheiro
Nós perdemos por causa do goleiro
Mas em nome da língua de Camões
O jumento transmite aos campeões
Um abraço do povo brasileiro.

Quer queria, ou quer não
O jumento é nosso irmão.
Quer queria, ou quer não
O jumento é nosso irmão.

Assessores do papa, cardeais
Baseados no Velho Testamento
Cancelaram a viagem do jumento
A noticia que o jegue não vai mais
Damião, deixa o seu burrico em paz
Já que o Papa recusa o jeriquinho
Pra ninguém não chamá-lo de imbecil
É melhor desistir desse presente
Com a abertura do nosso presidente
O lugar do jumento é no Brasil."

Quer queria, ou quer não
O jumento é nosso irmão.
Quer queria, ou quer não
O jumento é nosso irmão."