segunda-feira, 19 de março de 2018

DIA DE SÃO JOSÉ

Imagem: George de La Tour (1640)


Hoje é 19 de março, uma data muito importante para o sertanejo - o dia de São José. Segundo a cultura dos agricultores ao longo dos anos, a adoração ao pai terreno de Jesus Cristo se dá pelo fato da crença que em caso de chuva no sertão nesta data é porque haverá bom inverno e, consequentemente, boa safra. 

José era carpinteiro e hoje é considerado o "padroeiro dos trabalhadores". E por ter se dedicado como o verdadeiro pai de Cristo e fiel à sua esposa Maria também é venerado como "padroeiro das famílias.

De acordo com a Bíblia, o santo da Igreja Católica inicialmente não recebeu de bom grado a notícia da gravidez de Maria de um filho que não era seu, já que ela lhe estava prometida em casamento e ainda não haviam tido qualquer relação conjugal até então. A partir deste fato José passou a ignorá-la. Eis que um anjo apareceu-lhe em sonho e o convenceu a aceitar a graça recebida pelo Espírito Santo e recebeu de volta sua companheira.


Imagem: Opusdei.org


Luiz Gonzaga, sempre atento e fiel aos costumes nordestinos, citou São José em diversas músicas de seu repertório. Dentre elas as mais conhecidas são "São João do Carneirinho", em parceria com Guio de Morais (1952); "Triste partida", de Patativa do Assaré (1964); e "Procissão", de Gilberto Gil (1971).

Confira abaixo essas três canções do Rei do Baião em que ele evoca a tradição nordestina de esperar uma boa colheita pela intervenção divina de São José.




Procissão - Gilberto Gil (1971)


"Meu divino São José
Aqui estou em vossos pés
Dai-nos chuva com abundância
Meu Jesus de Nazaré

Olha lá vai passando a procissão
Se arrastando que nem cobra pelo chão
As pessoas que nela vão passando 
Acreditam nas coisas lá do céu
As mulheres cantando tiram versos
Os homens escutando tiram chapéu
Eles vivem penando aqui na Terra
Esperando o que Jesus prometeu

E Jesus prometeu coisa melhor
Prá quem vive nesse mundo sem amor
Só depois de entregar o corpo ao chão
Só depois de morrer neste sertão
Eu também tô do lado de Jesus
Só que acho que ele se esqueceu
De dizer que na Terra a gente tem
De arranjar um jeitinho pra viver

Muita gente se arvora a ser Deus 
E promete tanta coisa pro sertão 
Que vai dar um vestido prá Maria 
E promete um roçado pro João
Entra ano, sai ano e nada vem 
Meu sertão continua ao Deus dará
Mas se existe Jesus no firmamento
Cá na Terra isso tem que se acabar."






São João do Carneirinho - Luiz Gonzaga/Guio de Morais (1952)


"Eu prantei meu mio todo
No dia de São José.
Se me ajuda a providência
Vamos ter mio à grané.

Vou coiê pelos meu cárculo
Vinte espiga em cada pé.
Pelos cárculo vou colher
Vinte espiga em cada pé.

Ai, São João!
São João do Carneirinho
Você é tão bonzinho.
Fale com São José.
Fale lá com São José.
Peça pr’ele me ajudar.
Peça pro meu mio dá.
Vinte espiga em cada pé."






Triste partida - Patativa do Assaré (1964)


"Setembro passou 
Outubro e Novembro 
Já estamos em Dezembro 
Meu Deus, que é de nós?

Meu Deus, meu Deus

Assim fala o pobre 
Do seco Nordeste 
Com medo da peste 
E da fome feroz.

Ai, ai, ai, ai 

A treze do mês 
Ele fez experiência 
Perdeu sua crença 
Nas pedras de sal.

Meu Deus, meu Deus 

Mas noutra esperança 
Com gosto se agarra 
Pensando na barra 
Do alegre Natal.

Ai, ai, ai, ai 

Rompeu-se o Natal 
Porém, barra não veio 
O sol bem vermelho 
Nasceu muito além.

Meu Deus, meu Deus 

Na copa da mata 
Buzina a cigarra 
Ninguém vê a barra 
Pois barra não tem.

Ai, ai, ai, ai 

Sem chuva na terra 
Descamba Janeiro
Depois fevereiro 
E o mesmo verão.

Meu Deus, meu Deus 

Então o nortista 
Pensando consigo 
Diz isso é castigo 
não chove mais não.

Ai, ai, ai, ai 

Apela pra Março 
Que é o mês preferido 
Do santo querido 
Senhor São José.

Meu Deus, meu Deus 

Mas nada de chuva 
Tá tudo sem jeito 
Lhe foge do peito 
O resto da fé.

Ai, ai, ai, ai 

Agora pensando 
Ele segue outra trilha 
Chamando a família 
Começa a dizer.

Meu Deus, meu Deus 

Eu vendo meu burro 
Meu jegue e o cavalo 
Nós vamos a São Paulo 
Viver ou morrer.

Ai, ai, ai, ai 

Nós vamos a São Paulo 
Que a coisa está feia 
Por terras alheias 
Nós vamos vagar.

Meu Deus, meu Deus 

Se o nosso destino 
Não for tão mesquinho 
Pro mesmo cantinho 
Nós torna a voltar.

Ai, ai, ai, ai 

E vende seu burro 
Jumento e o cavalo 
Até mesmo o galo 
Venderam também.

Meu Deus, meu Deus 

Pois logo aparece 
Feliz fazendeiro 
Por pouco dinheiro 
Lhe compra o que tem.

Ai, ai, ai, ai 

Em um caminhão 
Ele joga a família 
Chegou o triste dia 
Já vai viajar.

Meu Deus, meu Deus 

A seca terrível 
Que tudo devora 
Ai,lhe bota pra fora 
Da terra natá.

Ai, ai, ai, ai 

O carro já corre 
No topo da serra 
Olhando pra terra 
Seu berço, seu lar.

Meu Deus, meu Deus 

Aquele nortista 
Partido de pena 
De longe acena 
Adeus, meu lugar.

Ai, ai, ai, ai 

No dia seguinte 
Já tudo enfadado 
E o carro embalado 
Veloz a correr.

Meu Deus, meu Deus 

Tão triste, coitado 
Falando saudoso 
Com seu filho choroso 
Exclama a dizer.

Ai, ai, ai, ai 

De pena e saudade 
Papai sei que morro 
Meu pobre cachorro 
Quem dá de comer?

Meu Deus, meu Deus 

Já outro pergunta 
Mãezinha, e meu gato? 
Com fome, sem trato 
Mimi vai morrer.

Ai, ai, ai, ai 

E a linda pequena 
Tremendo de medo 
Mamãe, meus brinquedo 
Meu pé de fulô? 

Meu Deus, meu Deus 

Meu pé de roseira 
Coitado, ele seca 
E minha boneca 
Também lá ficou.

Ai, ai, ai, ai 

E assim vão deixando 
Com choro e gemido 
Do berço querido 
Céu lindo e azul.

Meu Deus, meu Deus 

O pai, pesaroso 
Nos filhos pensando 
E o carro rodando 
Na estrada do Sul.

Ai, ai, ai, ai 

Chegaram em São Paulo 
Sem cobre quebrado 
E o pobre acanhado 
Procura um patrão 

Meu Deus, meu Deus 

Só vê cara estranha 
De estranha gente 
Tudo é diferente 
Do caro torrão.

Ai, ai, ai, ai 

Trabalha dois ano 
Três ano e mais ano 
E sempre nos planos 
De um dia voltar.

Meu Deus, meu Deus 

Mas nunca ele pode 
Só vive devendo 
E assim vai sofrendo 
É sofrer sem parar.

Ai, ai, ai, ai 

Se alguma notícia 
Das banda do norte 
Tem ele por sorte 
O gosto de ouvir.

Meu Deus, meu Deus 

Lhe bate no peito 
Saudade de mói 
E as água nos olhos 
Começam a cair.

Ai, ai, ai, ai 

Do mundo afastado 
Ali vive preso 
Sofrendo desprezo 
Devendo ao patrão.

Meu Deus, meu Deus 

O tempo rolando 
Vai dia e vem dia 
E aquela família 
Não volta mais não.

Ai, ai, ai, ai 

Distante da terra 
Tão seca, mas boa 
Exposto à garoa 
A lama e o baú.

Meu Deus, meu Deus 

Faz pena o nortista 
Tão forte, tão bravo 
Viver como escravo 
No Norte e no Sul.

Ai, ai, ai, ai"




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