Imagem: George de La Tour (1640)
Hoje é 19 de março, uma data muito importante para o sertanejo - o dia de São José. Segundo a cultura dos agricultores ao longo dos anos, a adoração ao pai terreno de Jesus Cristo se dá pelo fato da crença que em caso de chuva no sertão nesta data é porque haverá bom inverno e, consequentemente, boa safra.
José era carpinteiro e hoje é considerado o "padroeiro dos trabalhadores". E por ter se dedicado como o verdadeiro pai de Cristo e fiel à sua esposa Maria também é venerado como "padroeiro das famílias.
De acordo com a Bíblia, o santo da Igreja Católica inicialmente não recebeu de bom grado a notícia da gravidez de Maria de um filho que não era seu, já que ela lhe estava prometida em casamento e ainda não haviam tido qualquer relação conjugal até então. A partir deste fato José passou a ignorá-la. Eis que um anjo apareceu-lhe em sonho e o convenceu a aceitar a graça recebida pelo Espírito Santo e recebeu de volta sua companheira.
Imagem: Opusdei.org
Luiz Gonzaga, sempre atento e fiel aos costumes nordestinos, citou São José em diversas músicas de seu repertório. Dentre elas as mais conhecidas são "São João do Carneirinho", em parceria com Guio de Morais (1952); "Triste partida", de Patativa do Assaré (1964); e "Procissão", de Gilberto Gil (1971).
Confira abaixo essas três canções do Rei do Baião em que ele evoca a tradição nordestina de esperar uma boa colheita pela intervenção divina de São José.
Procissão - Gilberto Gil (1971)
"Meu divino São José
Aqui estou em vossos pés
Dai-nos chuva com abundância
Meu Jesus de Nazaré
Olha lá vai passando a procissão
Se arrastando que nem cobra pelo chão
As pessoas que nela vão passando
Acreditam nas coisas lá do céu
As mulheres cantando tiram versos
Os homens escutando tiram chapéu
Eles vivem penando aqui na Terra
Esperando o que Jesus prometeu
E Jesus prometeu coisa melhor
Prá quem vive nesse mundo sem amor
Só depois de entregar o corpo ao chão
Só depois de morrer neste sertão
Eu também tô do lado de Jesus
Só que acho que ele se esqueceu
De dizer que na Terra a gente tem
De arranjar um jeitinho pra viver
Muita gente se arvora a ser Deus
E promete tanta coisa pro sertão
Que vai dar um vestido prá Maria
E promete um roçado pro João
Entra ano, sai ano e nada vem
Meu sertão continua ao Deus dará
Mas se existe Jesus no firmamento
Cá na Terra isso tem que se acabar."
Link do vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=lC1qj5h7W5U
São João do Carneirinho - Luiz Gonzaga/Guio de Morais (1952)
"Eu prantei meu mio todo
No dia de São José.
Se me ajuda a providência
Vamos ter mio à grané.
Vou coiê pelos meu cárculo
Vinte espiga em cada pé.
Pelos cárculo vou colher
Vinte espiga em cada pé.
Ai, São João!
São João do Carneirinho
Você é tão bonzinho.
Fale com São José.
Fale lá com São José.
Peça pr’ele me ajudar.
Peça pro meu mio dá.
Vinte espiga em cada pé."
Link do vídeo: https://youtu.be/XOcaY11wNHY
Triste partida - Patativa do Assaré (1964)
"Setembro passou
Outubro e Novembro
Já estamos em Dezembro
Meu Deus, que é de nós?
Meu Deus, meu Deus
Assim fala o pobre
Do seco Nordeste
Com medo da peste
E da fome feroz.
Ai, ai, ai, ai
A treze do mês
Ele fez experiência
Perdeu sua crença
Nas pedras de sal.
Meu Deus, meu Deus
Mas noutra esperança
Com gosto se agarra
Pensando na barra
Do alegre Natal.
Ai, ai, ai, ai
Rompeu-se o Natal
Porém, barra não veio
O sol bem vermelho
Nasceu muito além.
Meu Deus, meu Deus
Na copa da mata
Buzina a cigarra
Ninguém vê a barra
Pois barra não tem.
Ai, ai, ai, ai
Sem chuva na terra
Descamba Janeiro
Depois fevereiro
E o mesmo verão.
Meu Deus, meu Deus
Então o nortista
Pensando consigo
Diz isso é castigo
não chove mais não.
Ai, ai, ai, ai
Apela pra Março
Que é o mês preferido
Do santo querido
Senhor São José.
Meu Deus, meu Deus
Mas nada de chuva
Tá tudo sem jeito
Lhe foge do peito
O resto da fé.
Ai, ai, ai, ai
Agora pensando
Ele segue outra trilha
Chamando a família
Começa a dizer.
Meu Deus, meu Deus
Eu vendo meu burro
Meu jegue e o cavalo
Nós vamos a São Paulo
Viver ou morrer.
Ai, ai, ai, ai
Nós vamos a São Paulo
Que a coisa está feia
Por terras alheias
Nós vamos vagar.
Meu Deus, meu Deus
Se o nosso destino
Não for tão mesquinho
Pro mesmo cantinho
Nós torna a voltar.
Ai, ai, ai, ai
E vende seu burro
Jumento e o cavalo
Até mesmo o galo
Venderam também.
Meu Deus, meu Deus
Pois logo aparece
Feliz fazendeiro
Por pouco dinheiro
Lhe compra o que tem.
Ai, ai, ai, ai
Em um caminhão
Ele joga a família
Chegou o triste dia
Já vai viajar.
Meu Deus, meu Deus
A seca terrível
Que tudo devora
Ai,lhe bota pra fora
Da terra natá.
Ai, ai, ai, ai
O carro já corre
No topo da serra
Olhando pra terra
Seu berço, seu lar.
Meu Deus, meu Deus
Aquele nortista
Partido de pena
De longe acena
Adeus, meu lugar.
Ai, ai, ai, ai
No dia seguinte
Já tudo enfadado
E o carro embalado
Veloz a correr.
Meu Deus, meu Deus
Tão triste, coitado
Falando saudoso
Com seu filho choroso
Exclama a dizer.
Ai, ai, ai, ai
De pena e saudade
Papai sei que morro
Meu pobre cachorro
Quem dá de comer?
Meu Deus, meu Deus
Já outro pergunta
Mãezinha, e meu gato?
Com fome, sem trato
Mimi vai morrer.
Ai, ai, ai, ai
E a linda pequena
Tremendo de medo
Mamãe, meus brinquedo
Meu pé de fulô?
Meu Deus, meu Deus
Meu pé de roseira
Coitado, ele seca
E minha boneca
Também lá ficou.
Ai, ai, ai, ai
E assim vão deixando
Com choro e gemido
Do berço querido
Céu lindo e azul.
Meu Deus, meu Deus
O pai, pesaroso
Nos filhos pensando
E o carro rodando
Na estrada do Sul.
Ai, ai, ai, ai
Chegaram em São Paulo
Sem cobre quebrado
E o pobre acanhado
Procura um patrão
Meu Deus, meu Deus
Só vê cara estranha
De estranha gente
Tudo é diferente
Do caro torrão.
Ai, ai, ai, ai
Trabalha dois ano
Três ano e mais ano
E sempre nos planos
De um dia voltar.
Meu Deus, meu Deus
Mas nunca ele pode
Só vive devendo
E assim vai sofrendo
É sofrer sem parar.
Ai, ai, ai, ai
Se alguma notícia
Das banda do norte
Tem ele por sorte
O gosto de ouvir.
Meu Deus, meu Deus
Lhe bate no peito
Saudade de mói
E as água nos olhos
Começam a cair.
Ai, ai, ai, ai
Do mundo afastado
Ali vive preso
Sofrendo desprezo
Devendo ao patrão.
Meu Deus, meu Deus
O tempo rolando
Vai dia e vem dia
E aquela família
Não volta mais não.
Ai, ai, ai, ai
Distante da terra
Tão seca, mas boa
Exposto à garoa
A lama e o baú.
Meu Deus, meu Deus
Faz pena o nortista
Tão forte, tão bravo
Viver como escravo
No Norte e no Sul.
Ai, ai, ai, ai"
Link do vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=8n2bIOESPRQ

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