quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

VOZES DA SECA

Foto: Antônio Carlos Alves/C4 Notícias


Vivemos o período de uma das piores secas - senão a pior - da história no Brasil. Na região do semiárido os reservatórios de água e rios estão minguando e várias localidades encontram-se em completo colapso de abastecimento, sendo socorridos por carros-pipa contratados pelas prefeituras. Até mesmo São Paulo, conhecida como "Terra da Garoa", chegou a experimentar os rigores climáticos com escassez de água por algum tempo recentemente.

Essa triste situação não é nenhuma novidade para o país, pois sai década e entra década e muito pouco se faz para, ao menos, tentar amenizar uma situação climática e um sofrimento que são frequentes. 

O recado é dado há anos aos governantes. E algumas das vozes que entoaram o coro para tais providências foram as de Luiz Gonzaga e seu parceiro artístico Zé Dantas, que transformaram em música uma reivindicação por melhores condições de vida no Nordeste após mais um período de seca severa. Aliás, Gonzagão foi um grande inovador das canções de protesto na música brasileira, abrindo portas para que outros artistas usassem o meio para a exposição de seus anseios.

A clássica "Vozes da seca", apesar de composta em 1953, nunca deixou de ser um recado bem atual dados os constantes problemas que os nordestinos têm passado em relação a água. A música se refere a uma grande estiagem que atingiu a região naquele ano. Então houve campanhas para doações diversas para o socorro dos atingidos pela seca, além do decreto de Estado de Emergência pelo presidente da república na época, Getúlio Vargas. Até os dias de hoje congressistas citam a obra em seus discursos em plenário sobre a falta de ações governamentais.

Entretanto, a dupla Gonzaga e Dantas não viam como solução dos problemas apenas as doações, pois concluíram que a "esmola" traria apenas um alívio momentâneo para a situação calamitosa, além de "matar de vergonha" e "viciar o cidadão" como bem diz um dos trechos da canção.


Foto: Júnior Santos/Tribuna do Norte


Em "Vozes da Seca" Luiz Gonzaga e Zé Dantas pediram ações concretas do Estado, não só solidariedade. Reivindicaram construção de barragens e açudes, preços menores para alimentação e criação de empregos. E o pagamento desta "dívida inté com os juros" seria com trabalho diante da força, capacidade e coragem do sertanejo para produzir.

A SUDENE (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste), autarquia federal criada para promover o desenvolvimento da região Nordeste - incluindo o norte de Minas Gerais e do Espírito Santo -, foi criada em 1959 pelo então presidente Juscelino Kubitscheck devido aos problemas enfrentados por esses lugares e por conta das vozes, como as de Gonzaga e Zé Dantas, que clamavam por uma providência do governo.

Abaixo, vídeo com "Vozes da seca", uma das primeiras canções de protesto da nossa história.




Vozes da seca - Luiz Gonzaga/Zé Dantas (1953)


"Seu doutô os nordestinos têm muita gratidão
Pelo auxílio dos sulistas nessa seca do sertão
Mas doutô uma esmola a um homem que é são
Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão!

É por isso que pedimos proteção a vosmecê
Home por nóis escuído para as rédias do poder
Pois doutô dos vinte estados, temos oito sem chover
Veja bem, quase a metade do Brasil tá sem comer.

Dê serviço ao nosso povo, encha os rio de barragem
Dê comida a preço bom, não esqueça a açudagem
Livre assim nóis da esmola, que no fim dessa estiagem
Lhe pagamos inté os juros sem gastar nossa coragem.

Se o doutô fizer assim salva o povo do sertão
Quando um dia a chuva vim, que riqueza pra nação!
Nunca mais nóis pensa em seca, vai dá tudo nesse chão
Como vê nosso destino mercê tem nas vossas mãos!"


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