Imagem: Reprodução/Blog do Geraldo José
Há exatos 26 anos o Brasil e o mundo viam se calar uma das grandes vozes da música. Parafraseando Getúlio Vargas, Luiz Gonzaga saía da vida para entrar na história da cultura popular brasileira com sua sanfona e sua cantoria que encantou gerações por cinco décadas.
O ano de 1989, que marcaria a despedida do Rei do Baião, foi muito difícil para o sanfoneiro de Exu. Aos 76 anos, já com a doença (câncer de próstata) lhe maltratando bastante, ainda rumou com Edelzuíta - sua segunda companheira - para São Paulo a fim de participar da gravação da música "O juazeiro e a sombra", de autoria de Dominguinhos e Fausto Nilo. Além disso, solicitou uma audiência com a então prefeita de paulistana Luiza Erundina, nordestina como ele (nasceu na Paraíba), para pedir apoio às casas de forró.
Em abril, com o mal em seu estágio mais avançado, teve que se submeter a uma cirurgia no fêmur para implantação de uma prótese. A partir de então não conseguia mais se locomover sem o auxílio de cadeiras de rodas.
Em 06 de junho, já bastante debilitado, fez a última apresentação de sua vida no Teatro Guararapes, no Centro de Convenções de Pernambuco, em Recife. O show foi uma homenagem ao eterno Rei do Baião promovido por Marinês, Dominguinhos, Alceu Valença e Gonzaguinha. Luiz Gonzaga também chamou seu último parceiro João Silva, com o qual fez 187 composições, sendo o recordista dentre todos os que acompanharam o sanfoneiro em sua carreira. Tentou cantar "Nem se despediu de mim" e "Asa Branca", mas a voz não saia e a memória já estava ficando fraca, fazendo-lhe esquecer de alguns versos. Chorou depois que foi aplaudido de pé por mais de duas mil pessoas.
Apesar de todo o sofrimento pelo qual passava, Luiz Gonzaga tinha a agenda lotada de shows durante as festas juninas daquele ano. Entretanto, no dia 21 de junho foi admitido no hospital Santa Joana, na capital pernambucana, em estado grave com um quadro de pneumonia e infecção urinária em consequência do câncer. Durante 42 dias Gonzaga lutou contra a morte, mas na madrugada do dia 02 de agosto a batalha fora perdida e o coração do sanfoneiro parou de bater.
Foto: Pedro Luiz/Agência O Globo
Luiz Gonzaga foi velado e reverenciado por uma multidão incalculável de admiradores em Recife, Juazeiro do Norte e, finalmente, Exu, onde foi sepultado no dia 04 no cemitério local. O mundo viu se calar a voz do cantador do sertão brasileiro, mas a sanfona com sua arte continua a tocar até os dias atuais. Seu legado ficou para toda uma geração que veio e está por vir.
Vários de seus contemporâneos do meio musical tiveram na arte deixada por Luiz Gonzaga um alicerce para suas carreiras, que serviu para continuar o trabalho do sanfoneiro e formar uma nova legião de admiradores e novos músicos que nunca tiveram contato pessoal com o Rei do Baião, mas que passaram a admirar e a pôr em prática sua rica obra.
Gonzagão deixou seu legado cultural e influenciou diretamente a música popular brasileira reinventando ritmos, criando outros, dando uma nova cor ao cancioneiro regional. O ritmo envolvente do estilo eternizado pelo sanfoneiro, com a simples formação sanfona, zabumba e triângulo, convida todos a dançar, mesmo fora do período do carnaval. Representante maior da música popular nordestina, o "Velho Lua" interferiu decisivamente na trajetória musical do país ao introduzir no cenário nacional os ritmos do Nordeste – toadas, xotes, chamegos, baiões, xaxados, marchinhas, maracatus, emboladas, etc.
Com sua musicalidade moldou a identidade nordestina no imaginário do Brasil, imprimindo ao acordeon das valsas e tangos, a partir da década de 1940, um novo estilo sonoro. E esta identidade nordestina acabou por influenciar – e atrair – várias gerações ao longo do tempo.
Inúmeras homenagens desde sua passagem foram feitas ao mestre maior da música nordestina. Seja com composições, documentários, reportagens, filme e até enredo vencedor de escola de samba do Rio de Janeiro. Todas de suma importância para a continuidade do legado do "Velho Lua". No vídeo a seguir uma delas, que considero uma das mais bonitas, gravada pelo seu maior súdito, seu grande e saudoso herdeiro musical Dominguinhos, expressando numa linda canção toda nossa saudade e reverência a Gonzagão. Como bem diz a letra: "Numa canção que não se acaba, era Gonzaga, o Rei do Baião". E jamais se acabará.
Estrela Gonzaga - J. Michiles (1992)
"Quando olhei a terra ardendo
Lembrei de Luiz, o Rei do Baião
E quando o fole da sanfona foi gemendo
A saudade foi doendo no meu coração.
Olhei pro céu e vi uma estrela
Iluminando que nem balão
E aquela luz que prateava
E derramava no sertão
Numa canção que não se acaba
Era Gonzaga, Rei do Baião."
Link do vídeo: https://youtu.be/t0Ipt_Cg2tg


Nenhum comentário:
Postar um comentário