terça-feira, 21 de abril de 2015

A PERDA DE UM PATRIMÔNIO DA MÚSICA NORDESTINA

Foto: Cristiana Dias/Secult-PE



Os últimos anos têm sido bastantes sofridos para a sanfona. Vimos as partidas de Mário Zan, Sivuca, Marinês, Chiquinha Gonzaga, Dominguinhos, Arlindo dos 8 baixos, João Silva, Severo, entre tantos outros. E hoje mais uma péssima notícias para os fãs do acordeon: o falecimento do mestre Camarão (foto acima) acontecido em Recife/PE.

A data do nascimento de Reginaldo Alves Ferreira, em 1940 na cidade de Brejo da Madre de Deus/PE, já seria um prenúncio do que viria pela frente - 23 de junho, véspera de São João. Já tinha a música no sangue, visto que seu pai Antônio Neto era sanfoneiro e desde cedo levava o garoto para as festas que animava na região.

O apelido Camarão apareceu depois que o radialista Jacinto Silva o comparou ao crustáceo devido às suas bochechas bastante avermelhadas. A alcunha lhe acompanhou por toda a vida.

Foi na Rádio Difusora de Caruaru, nos anos 50, que Camarão começou a alçar seu nome com a sanfona no peito. Conheceu, dentre muitos artistas consagrados, Sivuca, Hermeto Pascoal e outros. Mas foi estudando os métodos de Mário Mascarenhas e ouvindo o mestre maior da música Luiz Gonzaga que o então jovem sanfoneiro aperfeiçoou suas técnicas no instrumento.


Foto: Reprodução/Facebook - Cabana do Gonzagão



Camarão conheceu Gonzaga (foto acima) em 1958 e com o Rei do Baião gravou várias músicas. Foi o próprio Lua quem promoveu a primeira banda de forró da história do país, a "Banda do Camarão", que tinha como acordeonista o jovem pernambucano. Participou ainda da Orquestra Sanfônica de Caruaru, introduzindo ao ritmo regional instrumentos como saxofone, trombone, flauta, entre outros. Também fez inúmeras apresentações com artistas renomados como mestre Vitalino, Dominguinhos, Marinês e Trio Nordestino.

Desde a década de 80 mantinha e dava aulas de sanfona na "Escola Acordeon de Ouro", no bairro de Areias em Recife. Tamanho o seu prestígio e reconhecimento que de suas salas de aula saíram grandes sanfoneiros da atualidade como Targino Gondim e Cezzinha. Em 2002 fez sucesso ao participar em São Paulo do projeto "Sanfona Brasil" ao lado de outros mestres do fole como Zé Calixto e Arlindo dos 8 baixos. Por sua importância cultural, Camarão foi nomeado "Patrimônio Vivo de Pernambuco" no mesmo ano através da Lei Estadual nº 12.196. Na verdade sua obra transcendeu as fronteiras pernambucanas e ele pode ser considerado um "Patrimônio da Música Nordestina".

Mestre Camarão tinha problemas renais há algum tempo e se submetia à hemodiálise periodicamente. Na última semana passou mal e foi levado pela família a um hospital da capital pernambucana, onde ficou constatada a presença de feridas no intestino grosso, que logo provocou uma infecção intestinal e o levou para a UTI. Hoje, 21 de abril, quando se preparava para uma sessão de hemodiálise sua pressão baixou bruscamente e seu coração não resistiu. Por volta das 8h30 da manhã desta terça a sanfona brasileira ficou novamente sentida com mais uma perda irreparável.

O sanfoneiro deixou esposa e quatro filhos, dentre eles Salatiel D'Camarão, que seguiu o gosto pela música como o pai. Em 2014, durante o São João de sua querida Caruaru, Camarão disse que "mesmo que parta daqui, deixei uma coisa feita". Uma não, muita coisa mesmo! Deixou uma obra riquíssima e um legado inestimável para as futuras gerações de sanfoneiros de norte a sul do Brasil.

Abaixo, um vídeo em homenagem ao grande mestre Camarão. Ele mesmo mostrando sua habilidade na sanfona e contando um pouco de sua rica história em sua casa.






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