segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

O CENTENÁRIO DO DOUTOR DO BAIÃO

Foto: autor desconhecido




Há exatos cem anos na cidade de Iguatu, localizada no centro-sul do estado do Ceará e distante cerca de 400km da capital Fortaleza, nascia Humberto Cavalcanti de Albuquerque Teixeira, ou simplesmente Humberto Teixeira. Músico, advogado, compositor e político brasileiro, Teixeira marcou para sempre a história musical brasileira a partir dos anos 40 - mais precisamente 1945 - quando encontrou o Rei do Baião Luiz Gonzaga pela primeira vez no Rio de Janeiro em seu escritório de advocacia, na avenida Calógeras, numa tarde de outono daquele mesmo ano.

A parceria foi idealizada após o primeiro grande parceiro de Gonzaga, Miguel Lima, não ter muito interesse em compor músicas que tivessem como mote o Nordeste, como queria o sanfoneiro. Daí então Lima indicou o compositor Lauro Maia para que Luiz o procurasse e expusesse seu desejo de cantar o sertão. Este também não se interessou pela ideia e recomendou então seu cunhado Humberto Teixeira. Encontro consumado e a história está aí para contar o estrondoso sucesso de ambos.

Teixeira já tinha na família a veia musical. Seu tio era maestro e lhe ensinou os primeiros passos nos acordes. Seu pai, João Euclides Teixeira, presenteou-lhe com uma flauta que hoje está exposta no Museu da Imagem e do Som de Iguatu. Mas não foi com o instrumento que Humberto ganhou notoriedade, mas com as letras que compunha em conjunto com as melodias musicais.

Foi mandado pelo avô, coronel Francisco Teixeira, líder político da região na época, para estudar no Rio de Janeiro, de onde viria a se formar em direito - daí a alcunha "Doutor do Baião" alguns anos mais tarde já consolidado ao lado de Luiz Gonzaga no cenário musical brasileiro.


Foto: autor desconhecido



Voltando ao encontro histórico de Teixeira e Gonzaga, logo na reunião inicial de ambos saiu o rascunho do primeiro sucesso da dupla, musicalmente chamado de monstro: "No meu pé de serra", de 1945.


"Lá no meu pé de serra
Deixei ficar meu coração
Ai, que saudades tenho
Eu vou voltar pro meu sertão..."


A partir de então várias obras primas foram compostas pela parceria, mas os maiores destaques ficam, sem dúvida, para "Asa Branca" - o maior clássico musical da história do país ao lado de Aquarela do Brasil e Garota de Ipanema - e "Baião", marco introdutório do ritmo no Brasil que veio definitivamente impulsionar a carreira de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga em 1947.

Mas nem só da parceria com Gonzaga viveu a composição de Teixeira. O advogado cearense também criou letras para o acervo de Dalva de Oliveira ("Kalu"), Carmélia Alves ("Adeus, minha fulô"), entre outros. E também nem só o baião saiu de suas geniais ideias, mas sambas e marchinhas também fizeram parte de sua rica obra musical.

Em 1954 elegeu-se deputado federal pelo Ceará e teve como principal feito no Congresso a promulgação da lei 3.447 de 23 de outubro de 1958, conhecida como "Lei Humberto Teixeira", que tratava da formação de caravanas artísticas de divulgação da música popular brasileira no exterior.

Tamanha a importância de Humberto Teixeira para a música brasileira que fundou em 1956, junto com o também compositor João de Barro, a Academia Brasileira de Música Popular, de onde foi presidente, além de representar o país na Europa em um congresso internacional de autores e compositores como delegado especial. 

Como citado, foi idealizador da "Caravana Oficial da Música Popular Brasileira" a partir de 1957, que levava artistas brasileiros para o exterior a fim de divulgar a música nacional. Sivuca, Valdir Azevedo, Pery Ribeiro, Carmélia Alves e Altamiro Carrilho foram alguns dos renomados músicos que participaram destas caravanas.


Registro histórico de Teixeira e Gonzaga falando da clássica "Asa Branca"



Humberto Teixeira faz parte da rica cultura artística brasileira. Ao lado de Zé Dantas e João Silva formou a trinca que mudou o cenário musical do país, compondo inúmeros sucessos ao lado do Rei do Baião. Teixeira também emprestou sua genialidade às melodias de Gilberto Gil, Geraldo Vandré, Dalva de Oliveira, Caetano Veloso, Gal Costa, Elba Ramalho e outros. 

O "Doutor do Baião" faleceu em 3 de outubro de 1979, aos 64 anos, de problemas cardíacos no Rio de Janeiro deixando um legado imensurável para as gerações posteriores. Desde "Meu Pedacinho", sua primeira composição em 1934, até "Dança do Capilé", última letra de sua carreira com Luiz Gonzaga (1979), foram inúmeras composições que ficaram marcadas na história da música popular brasileira.


"Das Dores pegue o passo
Cuidado com o meu pé
Não pise o meu coturno
Que comprei pro Capilé..."


Teixeira foi casado com a atriz Margot Bittencourt com quem teve uma filha, a atriz Denise Dumont, que produziu em 2009 o documentário "O homem que engarrafava nuvens", que conta a história de vida do pai. 

Parabéns a Humberto Teixeira pelo seu centenário! Se hoje o Brasil é rico musicalmente falando, muito é graças à sua importante contribuição ao longo de mais de três décadas.


Link do vídeo: http://youtu.be/vnMeho_DZp0


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