Foto: Reprodução/Facebook
Algumas pessoas creditam a abertura das portas do reino de Gonzagão a vários personagens: Humberto Teixeira, Miguel Lima, Lauro Maia, Ary Barroso, entre outros. Há quem confirme que o grupo de cearenses - aquele mesmo que pediu ao sanfoneiro para tocar uma "coisinha" do Nordeste - presente no bar Cidade Nova, na região do porto do Rio de Janeiro (conhecido como Mangue), foi o impulso inicial para a majestade de Luiz Gonzaga.
Entretanto, ao meu ver, o grande responsável pelo surgimento do Rei do Baião é outra pessoa, que muitos sequer lembram do papel importante que teve na passagem de Gonzaga pelo Rio de Janeiro a partir de 1939. Estou falando de Henrique Xavier Pinheiro, na foto acima ao lado da atriz Sílvia Buraque, representado pelo personagem de Luciano Quirino no filme “Gonzaga – de pai para filho”, de Breno Silveira.
Xavier Pinheiro foi um ex-marinheiro e violonista de grande categoria nascido em Salvador, na Bahia, em dia e local desconhecidos. Chegou à então capital federal nos anos 20 e passou a freqüentar os bares na região do baixo meretrício carioca para tocar para os fregueses e, assim, receber alguns trocados para se sustentar.
Com seu talento para o violão e, notadamente, para a viola portuguesa, logo estava se apresentando em casas noturnas e clubes da cidade especializados na música lusitana. Algum tempo depois foi contratado para ser músico da Rádio Vera Cruz justamente para tocar os ritmos portugueses.
No ano de 1929 Xavier Pinheiro lançou seu primeiro disco na Parlophon, intitulado “Vasco da Gama”, contendo canções da cultura portuguesa. Em parceria com Antônio Ferreira da Conceição gravou “Saudades de Portugal” e “Fado da Conceição”.
Apesar do sucesso que sua música fazia, sobretudo na colônia portuguesa instalada no Rio de Janeiro, Henrique Xavier Pinheiro não tinha uma vida de luxo e requinte comum à maioria dos artistas. Vivia com sua esposa, Leopoldina de Castro Xavier, numa casa humilde no Morro de São Carlos em Estácio de Sá. Apesar de não ter tantas posses mantinha a família sem muitos apertos financeiros.
Mesmo com tantas gravações e apresentações, Xavier Pinheiro continuava com sua rotina de tocador no Mangue. Até que certo dia, na porta de um dos bares da região, encontrou um sanfoneiro de cara morena e arredondada, típica de nordestino como o próprio Xavier, tentando a vida tocando valsas, tangos e foxtrotes em busca de uns trocados no chapéu.
Foto: divulgação
Este sanfoneiro era Luiz Gonzaga, ex-militar como Xavier Pinheiro, que da mesma forma tentava um lugar ao sol com a música no Rio de Janeiro. A partir de então passou a fazer parcerias com o novo amigo nas apresentações pelo local e o convidou a se instalar em sua residência até que Gonzaga encontrasse a sua própria.
Surgia daí uma grande amizade que abriu portas ao futuro Rei do Baião e que também lhe foi muito útil na questão familiar. Foi Xavier Pinheiro quem apresentou Luiz Gonzaga a Antenógenes Silva, virtuoso do acordeon que lapidou o talento do sanfoneiro pernambucano – apesar de saber tocar o instrumento Gonzaga pouco conhecia sobre a parte teórica musical.
Foi também aos cuidados de Xavier e sua esposa, conhecida como Dina, que Luiz Gonzaga pode deixar seu então jovem filho Gonzaga Júnior para poder trabalhar nas gravações e apresentações – sempre ajudando nas despesas da casa com o garoto. Para alguns historiadores, Gonzaguinha considerava como seus pais o casal do Morro de São Carlos.
Ou seja, o pontapé inicial para o reinado de Luiz Gonzaga foi dado por Xavier Pinheiro por sua receptividade na chegada do sanfoneiro ao Rio de Janeiro, além de ter aberto os caminhos para que pudesse desenvolver sua musicalidade. Não à toa, em retribuição ao talentoso amigo, Gonzaga gravou “Segure a polca” de autoria do violonista em 1941. E dois anos depois novamente o sanfoneiro gravou outra composição de Xavier, desta vez a valsa “Ivone”.
Foto: Repodução/Site LuizLuaGonzaga
O “Baiano do violão”, como chegou a ser conhecido, deixou em sua trajetória artística dez discos gravados e diversas composições de valsas, fados, polcas e outros gêneros. Infelizmente existem poucas informações sobre sua vida, tanto que sequer constam em todas as pesquisas feitas dados sobre nascimento, morte e família. Tampouco registros fotográficos conhecidos do artista, a não ser a foto acima ao lado de Gonzaga, Gonzaguinha, Odaléia Guedes (mãe de Gonzaguinha) e outro garoto desconhecido. E lamentavelmente o nome de Xavier Pinheiro é pouquíssimo lembrado quando falamos de música brasileira por parte da mídia e do público atuais. Não só por seu grande talento com o violão e a viola, mas, sobretudo, por ser um dos grandes responsáveis em abrir as portas do reino musical para a nossa majestade do baião Luiz Gonzaga.
Abaixo, a homenagem do Rei do Baião a quem lhe deu a mão no começo da conquista de seu trono com "Segue a polca".
Segure a polca - Henrique Xavier Pinheiro (1941)
Instrumental
Link do vídeo: https://youtu.be/COCsi9njxeI



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