Foto: Autor desconhecido
Também em março completa-se mais um ano sem um dos mais geniais compositores que o Brasil já teve. Há 58 anos, mais precisamente no dia 11 passado, o mundo da música perdia Zé Dantas, um dos grandes parceiros da obra do Rei do Baião Luiz Gonzaga - para muitos críticos o maior deles.
Autor de músicas que marcaram a carreira de Gonzagão e a música popular brasileira, como “A volta da asa branca”, “O xote das meninas”, “Riacho do Navio”, “Vozes da seca”, “Sabiá”, entre outras, José de Sousa Dantas Filho nasceu em Carnaíba das Flores, Pernambuco, em 27 de fevereiro de 1921.
Filho de um abastado dono de terras da região, o coronel Zeca Dantas, Zé Dantas começou cedo no mundo das letras escrevendo crônicas sobre folclore para uma revista chamada “Formação” do Colégio Americano Batista de Recife, onde foi estudar ainda jovem.
Costumava passar as férias escolares no sertão, quando sempre estava presente nos bailes realizados nas redondezas da fazenda da família. Nessas festas ouviu e guardou muitos versos populares, que mais tarde seriam fontes para suas composições.
Estudante de medicina, desenvolveu sua habilidade em escrever e compor canções baseadas justamente no folclore nordestino que anos antes tratava na revista do colégio. Tamanha era sua capacidade intelectual, Zé Dantas não necessitava de instrumentos musicais para acompanhar suas composições. Uma simples caixa de fósforos era o suficiente para dar o tom certo de suas criações.
Como todo apreciador da cultura, Zé Dantas era profundo admirador do Rei do Baião. Certa vez, em 1947, Luiz Gonzaga esteve na capital de Pernambuco para algumas apresentações e reuniões com patrocinadores, quando o compositor foi até o seu encontro no Grande Hotel de Recife, onde o Velho Lua estava hospedado.
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Durante a conversa, Zé Dantas mostrou seu repertório ao sanfoneiro, que ficou admirado com as músicas compostas pelo então estudante de medicina. Tanto que Gonzaga saiu de Recife já com a certeza de gravar aquelas músicas com mote puramente sertanejo que tanto lhe agradaram - durante o trabalho de sua biografia no livro "O Sanfoneiro do Riacho da Brígida", de Sinval Sá, Gonzagão declarou que via o próprio sertão no rosto de Zé Dantas. Porém, uma condição foi imposta pelo então novo parceiro musical: que seu nome não figurasse na autoria em virtude de não agradar o seu pai coronel, que não queria o filho envolvido com a vida artística.
Obviamente Luiz Gonzaga não atendeu ao pedido do jovem compositor e levou ao mundo toda a genialidade da obra de Zé Dantas com sua voz e sanfona. A partir do momento em que mostrou a Luiz Gonzaga suas primeiras composições não parou mais de fazer parceria com o sanfoneiro. Tanto que passou a acompanhá-lo em diversas gravações, shows e produções diversas.
Nos começo dos anos 50 chegou a apresentar um programa na Rádio Jornal do Commércio do Recife, mas logo o compositor mudou-se para o Rio de Janeiro a fim de fazer residência médica em obstetrícia, chegando a trabalhar no Hospital dos Servidores da então capital federal.
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Ainda nos anos 50, além das músicas compostas para vários artistas, dentre eles Marinês, Carmélia Alves, Jackson do Pandeiro e Quinteto Violado, Zé Dantas voltou ao rádio com o programa "No mundo do baião", na poderosa Rádio Nacional, em que era o seu produtor juntamente com Humberto Teixeira, outro grande parceiro do Rei Baião, e cuja atração era apresentada pelo radialista Paulo Roberto. Luiz Gonzaga interagia com o apresentador e com o público ouvinte não só cantando, mas fazendo representações e descrições auditivas típicas do cotidiano nordestino.
Zé Dantas casou-se em 1954 com Yolanda Dantas, então professora do ensino primário do interior de Pernambuco. Para a amada fez uma letra especial gravada por Luiz Gonzaga: “A letra I”, como sendo uma declaração de amor à sua querida noiva (apesar de ter seu nome com Y). O compositor teve três filhos com Yolanda. A cantora potiguar Marina Elali é neta de Zé Dantas e segue carreira musical.
A saúde de Zé Dantas veio a ficar comprometida no início dos anos 60 após problemas no fígado e na coluna vertebral, levando-o à morte em 11 de março de 1962 com apenas 41 anos. Luiz Gonzaga perdia um de seus grandes parceiros musicais, assim como a música brasileira ficava órfã de um de seus mais geniais compositores do cancioneiro regional.
Em 2010, a Secretaria de Cultura da Prefeitura da cidade de Recife em parceria com a Fundação de Cultura Cidade do Recife lançou o livro "Zé Dantas segundo a letra I". Na obra, sua esposa Yolanda deu vários depoimentos sobre sua vida e sua carreira artística. O livro ainda trouxe fotos inéditas, além de dois artigos sobre música escritos pelo próprio compositor.
Em 2012, sua neta Marina Elali lançou o DVD "Duetos – Homenagem a Luiz Gonzaga e Zé Dantas", justamente no ano do centenário do Rei do Baião, o maior parceiro musical de seu avô. Dentre as participações de vários artistas nas gravações, Marina cantou junto com Zé Dantas a música especialmente dedicada à avó Yolanda, "A letra I", em que pela primeira vez o público ouvia o compositor cantando.
Até hoje, mesmo após quase 60 anos de sua partida, Zé Dantas ainda é referência para vários artistas, que não deixam seu rico legado ser esquecido.
Confira abaixo dois grandes sucessos de Zé Dantas, dentre eles com o próprio entoando junto com sua neta.
Acauã - Zé Dantas (1952) - Com Fagner
"Acauã, acauã vive cantando
Durante o tempo do verão
No silêncio das tardes agourando
Chamando a seca pro sertão
Chamando a seca pro sertão
Acauã,
Acauã,
Teu canto é penoso e faz medo
Te cala, acauã
Que é pra chuva voltar cedo
Que é pra chuva voltar cedo
Toda noite no sertão
Canta o João Corta-Pau
A coruja, mãe da lua
A peitica e o bacurau
Na alegria do inverno
Canta sapo, gia e rã
Mas na tristeza da seca
Só se ouve acauã
Só se ouve acauã
Acauã, Acauã."
A letra I - Luiz Gonzaga/Zé Dantas (1953) - Com Marina Elali
"Vai, cartinha fechada
Não deixa ninguém te abrir
Naquela casa caiada
Donde mora a letra I
Existe uma cacimba
Do rio que o verão secou
Meus óios chorou tanta mágoa
Que hoje sem água
Nem responde à dor
Vai, cartinha fechada
Não deixa ninguém te abrir
Naquela casa caiada
Donde mora a letra I
Existe uma cacimba
Do rio que o verão secou
Meus óios chorou tanta mágoa
Que hoje sem água
Nem responde à dor
Ai diz que o amor
Fumega no meu coração
Tal qual fogueira
Das noites de São João
Que eu sofro por viver sem ela
Tando longe dela
Só sei reclamar
Que eu vivo como um passarinho
Que longe do ninho
Só pensa em voltar."



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