Foto: Pinterest/deboravsilva
Já que um dos assuntos em voga hoje nos noticiários do país é a intervenção federal na segurança do estado do Rio de Janeiro, vamos falar de outra ocorrida há mais de 30 anos e que teve ampla participação do Rei do Baião no processo.
Você, leitor, pode estar se perguntando: "mas como Luiz Gonzaga pode ter participado de intervenção do governo se nem político ou militar da ativa era?". Realmente não era, mas sua obra é repleta de mensagens que retratam a vida difícil do trabalhador brasileiro (notadamente no Nordeste), de protesto e de busca pela melhoria de vida de seu povo. Vamos contar essa história.
Há décadas a região de Exu/PE, local de nascimento de Gonzagão, sofria com a guerra sangrenta política envolvendo as famílias Saraiva, Sampaio e Alencar. E isso amedrontava os habitantes da região, tornando a cidade praticamente uma terra sem lei onde quase tudo era resolvido na bala.
Foto: Reprodução/YouTube
Vendo a situação dramática na segurança de Exu, Gonzagão compôs e gravou, ao lado de seu filho Gonzaguinha, "Prece por Novo Exu", carregada de lamentações e súplicas divinas por paz em sua terra natal.
Depois de gravada a música, que viria a ser lançada em 1982, Gonzaga resolveu apelar para a prática e procurou o meio político para tentar ver seu desejo realizado. Teve a ideia de encontrar o então presidente da República em exercício Aureliano Chaves em Belo Horizonte e lhe suplicar por providências para sua amada Exu. O fato virou até matéria no noticiário nacional conforme você pode conferir abaixo.
Link do vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=g1hmVQ433ps
O trecho abaixo sobre o encontro entre o sanfoneiro e o mandatário brasileiro (segunda foto) foi extraído do livro "Vida de viajante", na minha opinião a melhor biografia do Rei do Baião, escrito por Dominique Dreyfus (Editora 34).
Os prepotentes do Exu só sabiam falar: “O negócio aqui é matar. Matam um nosso, nós matamos dois deles”, e as coisas ficavam por aí mesmo. [...] eu fui dar um show em Belo Horizonte [...]. Naquele dia eu tinha recebido uma comenda. Aí quando voltei da Câmara, não reconheci o hotel: estava cheio de polícia, de bombeiro, de carro de propaganda, um movimento danado. [...] Era a visita de Aureliano Chaves, o vice-presidente. À noite, fui fazer meu show. Quando voltei para o hotel, tinha um bilhete com a minha chave. Era do comandante da segurança de Aureliano Chaves. O vice-presidente queria me conhecer e pedia que eu marcasse uma hora. [...] Então amanhã às nove horas da manhã estarei aqui com a minha sanfona no punho, para fazer um pedido a ele. No dia seguinte, às nove em ponto eu estava à porta do elevador. Quando as portas abriram, eu: “Vai boiadeiro que o dia já vem. Aureliano, eu lhe dou meus parabéns... Presidente, por favor, ajude minha terra. Tudo é tão bonito lá, as terras são boas, temos muita água, só não temos as torneiras. E sofremos uma violência há trinta anos. Já rolaram muitas cabeças. Esse prejuízo nunca vai ser reparado, presidente. Mas se a gente fizer alguma coisa, pelo menos ameniza. O senhor vai nos ajudar, presidente?”. Ele disse: “Vou mandar estudar”. E a sanfona acompanhando a conversa. [...] Eu não cantei, só falando, claro. [...] Uma semana mais tarde, eu estava no Recife e resolvi ir para o Exu. Aí todo mundo falou: “Não vai não, que os caras lá tão querendo te capar!”. Eu: “Oxente, e por que isso?”. Acabava de haver uma intervenção no Exu. (DREYFUS, 1996, p. 283 e 286)
Depois de gravada a música, que viria a ser lançada em 1982, Gonzaga resolveu apelar para a prática e procurou o meio político para tentar ver seu desejo realizado. Teve a ideia de encontrar o então presidente da República em exercício Aureliano Chaves em Belo Horizonte e lhe suplicar por providências para sua amada Exu. O fato virou até matéria no noticiário nacional conforme você pode conferir abaixo.
Link do vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=g1hmVQ433ps
O trecho abaixo sobre o encontro entre o sanfoneiro e o mandatário brasileiro (segunda foto) foi extraído do livro "Vida de viajante", na minha opinião a melhor biografia do Rei do Baião, escrito por Dominique Dreyfus (Editora 34).
Os prepotentes do Exu só sabiam falar: “O negócio aqui é matar. Matam um nosso, nós matamos dois deles”, e as coisas ficavam por aí mesmo. [...] eu fui dar um show em Belo Horizonte [...]. Naquele dia eu tinha recebido uma comenda. Aí quando voltei da Câmara, não reconheci o hotel: estava cheio de polícia, de bombeiro, de carro de propaganda, um movimento danado. [...] Era a visita de Aureliano Chaves, o vice-presidente. À noite, fui fazer meu show. Quando voltei para o hotel, tinha um bilhete com a minha chave. Era do comandante da segurança de Aureliano Chaves. O vice-presidente queria me conhecer e pedia que eu marcasse uma hora. [...] Então amanhã às nove horas da manhã estarei aqui com a minha sanfona no punho, para fazer um pedido a ele. No dia seguinte, às nove em ponto eu estava à porta do elevador. Quando as portas abriram, eu: “Vai boiadeiro que o dia já vem. Aureliano, eu lhe dou meus parabéns... Presidente, por favor, ajude minha terra. Tudo é tão bonito lá, as terras são boas, temos muita água, só não temos as torneiras. E sofremos uma violência há trinta anos. Já rolaram muitas cabeças. Esse prejuízo nunca vai ser reparado, presidente. Mas se a gente fizer alguma coisa, pelo menos ameniza. O senhor vai nos ajudar, presidente?”. Ele disse: “Vou mandar estudar”. E a sanfona acompanhando a conversa. [...] Eu não cantei, só falando, claro. [...] Uma semana mais tarde, eu estava no Recife e resolvi ir para o Exu. Aí todo mundo falou: “Não vai não, que os caras lá tão querendo te capar!”. Eu: “Oxente, e por que isso?”. Acabava de haver uma intervenção no Exu. (DREYFUS, 1996, p. 283 e 286)
A visita de Luiz Gonzaga ao presidente Aureliano Chaves surtiu efeito. Tanto que em 09 de novembro de 1981 foi decretada intervenção no município de Exu pelo governo do estado de Pernambuco através do Decreto 7.549, em que o Major da Polícia Militar Jorge Luiz de Moura foi nomeado interventor . Assim terminou a onda de violência que assolava a cidade há vários décadas e o povo pode, finalmente, desfrutar de tempos de paz na região. Não bastasse todo o sucesso com sua música e o orgulho que os exuenses tinham de seu filho ilustre, agora ele era considerado uma espécie de mensageiro da paz.
Confira abaixo "Prece por Novo Exu", pontapé inicial para a paz reinar novamente no sopé da Serra do Araripe.
Prece por Novo Exu - Luiz Gonzaga/Gonzaguinha (1982)
"Seu moço é tão triste a história
Que já nem sei do começo
Não gosto de sua lembrança
E quando lembro estremeço
Eu era ainda criança
E tudo já estava no avesso
Amor demais deu em ódio
Tomou as contas de um terço
Pai Nosso, nos salve, Maria
Não deixe esses filhos sem berço.
São tantos ódios à solta
São tantas vezes a cruz
São tantos corpos tombados
São tantas vidas sem luz
São tantas vezes a raiva
Descendo o seu negro capuz
É tanto sangue e maldade
Que só o canto traduz
Pai Nosso, nos salve, Maria
Ajude a gente, Jesus.
E vamos embora daqui
Meu Deus, não dá pra ficar
Meu Cristo, eu quero sumir
Eu vou fugir pra acolá
Exu ficando vazio
E o povo buscando lugar
Adonde havia alegria
Sobrevive o mal-estar
Pai Nosso, nos salve, Maria
Da lei do morrer ou matar.
Que os poderosos se matam
Problema é do poder
Mas sempre sobra pros pobres
Isso eu não posso entender
Acaba restante uns quatro
Pra tentar se resolver
Quatro tiros, quatro mortes
E ninguém há pra nascer
Pai Nosso, nos salve, Maria
A morte não pode vencer.
Pois é, meu pai Januário
Parece que a paz não vingou
Nas terras do teu pé de serra
Acauã só agorou
Canta mais triste o Assum Preto
Mais triste do que já cantou
No céu, já não vejo Asa Branca
Foi simbora e não voltou
Pai Nosso, nos salve, Maria
Padim Ciço, por favor.
E entra ano e sai ano
E tudo sem solução
Confio que a juventude
Com sua revolução
Nos traga o amor e acabe
O horror desta tradição
E assim permita meu povo
Que volte pro meu sertão
Nos mostre, Pai Nosso e Maria
Irmão ajudando irmão."
Link do vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=3zGS5-7ogLA
Confira abaixo "Prece por Novo Exu", pontapé inicial para a paz reinar novamente no sopé da Serra do Araripe.
Prece por Novo Exu - Luiz Gonzaga/Gonzaguinha (1982)
"Seu moço é tão triste a história
Que já nem sei do começo
Não gosto de sua lembrança
E quando lembro estremeço
Eu era ainda criança
E tudo já estava no avesso
Amor demais deu em ódio
Tomou as contas de um terço
Pai Nosso, nos salve, Maria
Não deixe esses filhos sem berço.
São tantos ódios à solta
São tantas vezes a cruz
São tantos corpos tombados
São tantas vidas sem luz
São tantas vezes a raiva
Descendo o seu negro capuz
É tanto sangue e maldade
Que só o canto traduz
Pai Nosso, nos salve, Maria
Ajude a gente, Jesus.
E vamos embora daqui
Meu Deus, não dá pra ficar
Meu Cristo, eu quero sumir
Eu vou fugir pra acolá
Exu ficando vazio
E o povo buscando lugar
Adonde havia alegria
Sobrevive o mal-estar
Pai Nosso, nos salve, Maria
Da lei do morrer ou matar.
Que os poderosos se matam
Problema é do poder
Mas sempre sobra pros pobres
Isso eu não posso entender
Acaba restante uns quatro
Pra tentar se resolver
Quatro tiros, quatro mortes
E ninguém há pra nascer
Pai Nosso, nos salve, Maria
A morte não pode vencer.
Pois é, meu pai Januário
Parece que a paz não vingou
Nas terras do teu pé de serra
Acauã só agorou
Canta mais triste o Assum Preto
Mais triste do que já cantou
No céu, já não vejo Asa Branca
Foi simbora e não voltou
Pai Nosso, nos salve, Maria
Padim Ciço, por favor.
E entra ano e sai ano
E tudo sem solução
Confio que a juventude
Com sua revolução
Nos traga o amor e acabe
O horror desta tradição
E assim permita meu povo
Que volte pro meu sertão
Nos mostre, Pai Nosso e Maria
Irmão ajudando irmão."
Link do vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=3zGS5-7ogLA


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