quinta-feira, 3 de novembro de 2016

O REI DE GRANDE CORAÇÃO

Foto: Memorial Luiz Gonzaga


Além da genialidade musical, Luiz Gonzaga também era dono de um enorme coração. Nas suas palavras doou mais de 200 sanfonas pelo país no intuito de ajudar seus irmãos sanfoneiros que tentavam um lugar ao sol na música.

Porém, muitas vezes tentaram se aproveitar da boa vontade do Rei do Baião. Inventavam mentiras, tentavam enrolar Gonzaga no único propósito de explorar a bondade do sanfoneiro que não se continha em ver alguém sofrendo - pelo menos aparentemente -, ainda mais sendo nordestino.

Mas na maioria das ocasiões Gonzagão estendia a mão a gente de bem, que realmente estavam precisando. No causo abaixo, um dos vários contados por ele próprio no livro "O sanfoneiro do Riacho da Brígida", de Sinval Sá, o Rei narra um verdadeiro mutirão em prol de pacientes no hospital municipal do município de Vassouras/RJ.


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ESTENDENDO A MÃO


Certa feita eu ia pra Miguel Pereira, à altura de Vassouras, encontrei uma bagaceira de caminhão e, no meio dos escombros, gente de perna quebrada, outros morre não morre. Coloquei os que pude na camioneta, providenciei outras conduções e levei-os todos para o hospital. O problema era de suma gravidade, pois o hospital não tinha comida para tanta gente, era pobre. Esgotei meu dinheiro comprando pão, leite e café - todo o estoque que havia na cidade - e alguns remédios que faltavam no hospital.

Era uma situação difícil cuja solução urgia.

Não contei prosa. Arranjei minha sanfona, estendeu-se um lençol e saímos em passeata - eu e algumas pessoas de posição da cidade - a angariar fundos para os infelizes hospitalizados. Eu ia cantando e os amigos segurando o lençol pelas pontas. O povo não falhou, povo bom da bela cidade de Vassouras, era só jogando cédula no lençol. Caputi, o homem mais popular na cidade, ia recolhendo o dinheiro. A ele, creio, famoso poeta municipal, violinista, sanfoneiro nas horas vagas, boiadeiro de profissão e católico apostólico nos dias de missa, ninguém ia negar nada.

Foi um sucesso.

Quando demos o balanço, vimos que o dinheiro arrecadado dava pra alugar outro caminhão pra deixar os sãos na Paulicéia; dava pra pagar os remédios que não havia no hospital e pra outras despesas miúdas.

Daquilo tudo eu tirava uma compensação: era ver aqueles homens simples me abraçarem, me chamarem familiarmente pelo nome, como se eu fosse velho conhecido deles. Um adiantou-se e disse:

- Gonzaga, foi Deus quem te mandou, meu irmão.

Eu me sentia inteiramente recompensado.


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