quarta-feira, 6 de julho de 2016

LITERATURA DO REI DO BAIÃO

Imagem: Reprodução/O Nordeste.com


Luiz Gonzaga é o artista brasileiro mais presente na literatura nacional com mais de 40 obras sobre sua vida, carreira e influências. A primeira publicação tendo-o como protagonista aconteceu há 64 anos através de um potiguar de Currais Novos, o poeta Zepraxedi, que em 2016 completa um século de nascimento.

O livro "Luiz Gonzaga e outras poesias" (Editora Continental Artes Gráficas/SP) foi lançado em 1952 e, como diz o título, faz uma uma biografia do Rei do Baião através de poesias com linguagem bem coloquial. O prefácio foi do folclorista e historiador Luiz da Câmara Cascudo, que também era natural do Rio Grande do Norte. Logicamente eu o possuo em minha prateleira.

José Praxedes Barreto nasceu no Seridó norte-riograndense em 15 de novembro de 1916. Foi um multi-talentos: intérprete, compositor, escritor, poeta, radialista, jornalista e cordelista. Em 1950 seguiu para o Rio de Janeiro onde fixou moradia.


Foto: Autor desconhecido


Além de "Luiz Gonzaga e outras poesias", Zepraxedi (foto) também publicou outras obras: "A Rádio Nacional por dentro" (Editora Aurora/1958), "O sertão é assim" (Editora Vitória/1960), "Meu Seridó" (Fund. José Augusto/1977), além de diversos livretos de cordel e dois LPs.

Zepraxedi faleceu em 16 de março de 1982, aos 66 anos, no Rio de Janeiro. Abaixo um dos poemas que constam na biografia sobre o Rei do Baião que fala um pouco da história da família de Gonzaga.


JANNUÁRO


"Foi piqueno, hôje é grande!
Tá vistido e nasceu nú!
Jannuário, sanfôneiro
Das terra de Nôvo Êxú.

Tá lhi quá a Carnauba
Qui nasce no tabuleiro
Pra dá lucho e fidarguia
Lá pru pôvo do istrangeiro!
Assim nasceu Jannuáro
O papai dos sanfôneiro!

O grande Luiz Gonzaga
No Brazí, Rei do Baião!
É fio de Jannuáro
Puxou a sua benção;
Zé Gonzaga, sanfôneiro,
Sivirino o seu irmão...

Já cum quági setenta ano
Jannuáro é caba macho
Ninguém lhi bota cangaia
No fóle dos oito baixo.

Um'a faca na cintura,
Chapéu de couro e rusáro,
Um rétrato do pade Ciço
Nas fôia do breviário,
É quato coisa na vida
Qui num farta a Jannuáro.

Jannuáro, muléqui nôvo
Casou cum dona Santana,
sertanêja bunita e forte
Qui nen um pé de imburana!
Rainha das sertanêja
Nas terra pernambucana.

Fêz cum essa o sanfonêiro
Um casamento filiz,
E dus nove que nascêro
Um desses nóve é Luiz.

Gonzaga, o Rei do Baião,
Trouvi a sua fanmia
Aqui pru Rii de Janeiro
A terra das maravía!
Mas o véio Jannuáro
Gritou logo qui num hía.

'Eu nun nascí nesse mundo
Nem peixe, nem gavião,
Pra hí vuando nus are
Ou furá esse masão.
Se você quizé queu vá
Me arranje um canminhão'.

Gonzaga comprou o carro
Senão o véio num vinha!
Porém trouvi na bagage
Cinco saca de farinha.

Se arguem lhi preguntava
Se no Rii vinha morá
Jannuáro arrispondia
Sem a ninguém consurtá:
'Tô de vorta quarqué dia
Qui a farinha se acabá'.

E o cabôco bronzeado
Mais forte qui couro crú
Dêxou a sua fanmia
Nos conforto cá do sú,
E vortou pra sua roça
Nas terra de Nôvo Exú."



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